Shihoko Gouveia, uma Japonesa em Portugal

Vivendo em Portugal, partilhando o Japão

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Andre Moreira   2017年11月22日

O último nome de Shihoko Yamasuga, 76 anos, não é japonês, porque esteve casada 16 anos com um português. Desta união, não nasceram filhos, mas uma profunda relação com Portugal. Apesar de viver em terras lusas há mais de 30 anos, o seu português não é perfeito, mas a calma e a temperança com que se expressa, fazem de Shihoko uma japonesa fácil de compreender. Através de gestos ou com recurso a fotografias, poucas palavras, conta o seu caminho em solo português.

À cómoda do quarto da sua casa, em Cascais, vai buscar uma moldura para falar do marido que morreu há 14 anos. "Muita pena, não é?", diz, emocionada. Na imagem, visivelmente mais nova, de largo sorriso, Shihoko está ao lado do companheiro que conheceu em Lisboa, por intermédio de um amigo japonês. Fala do quimono que tem vestido na fotografia. Um yukata, tradicionalmente de verão, feito de algodão, enquanto todos os outros são de seda. O da imagem é azul-escuro, estampado com motivos florais. A ocasião, uma das muitas demonstrações de trajes japoneses organizada por Shihoko, em Portugal. Shihoko tem vários quimonos, e guarda-os, carinhosamente, na mesma cómoda de estilo oriental, embrulhados em papel pardo, como relíquias à espera de serem redescobertas.

Em japonês, quimono significa, literalmente, "coisa de vestir". Contudo, desse vulgar substantivo, nada tem. De todos os seus quimonos, o que mais se destaca é, claramente, o que Shihoko tem exposto numa das paredes do quarto. "Há vários tipos de quimono", explica Shihoko, "mas não sabemos bem a época exacta em que os atuais modelos surgiram".

A japonesa aponta para o quimono de seda negro que contrasta com a parede branca. "Este modelo é um Kurotomesode. É usado pela mãe da noiva". O Kurotomesode é um género de Homongi, um modelo de quimono que é usado por mulheres solteiras ou casadas com mais de 20 anos. Os desenhos são estampados apenas abaixo dos joelhos e no final das mangas. Se for de qualquer outra cor, que não negra, chama-se Irotomesode. Já as mulheres mais jovens usam o Furisode, um modelo de quimono de manga comprida, todo estampado com desenhos de flores, pássaros ou outros motivos nipónicos mais alegres.

O único elemento comum a todas as idades é o Obi, a faixa de tecido que se enrola à volta da cintura, terminando ou não num laço atrás das costas. O Obi pode chegar aos quatro metros e meio.

Das gavetas de Shihoko surgem mais e mais quimonos, "todos atuais", e esclarece, "são modelos que continuam a ser usados no Japão, embora apenas em acontecimentos mais formais.” Em Portugal, Shihoko veste-os em eventos do Cha-no-yu (cerimónias de chá) e em exposições de trabalhos seus de pintura, fotografia e ikebana (arranjos florais japoneses). Shihoko organiza e participa nestes eventos desde 1983, como forma de dar a conhecer ao povo português a cultura do seu país.

No Japão, Shihoko trabalhava num banco, quando decidiu reformar-se e vir para a universidade, em Lisboa, frequentar um curso de português para estrangeiros. Considera que se reformou muito cedo e, talvez por isso, tenha passado muitos dos anos seguintes a ensinar aos outros mais sobre a cultura nipónica. "Nós também aprendemos muito com os portugueses. Há muitas palavras portuguesas que também são usadas no Japão", justifica.

Shihoko também já deu workshops de caligrafia. Em japonês, a arte de escrever chama-se Shodô ou Sumi-ê, e é uma das expressões mais características do Oriente.

Esta senhora de semblante sereno é também muito conhecida em Portugal pelo seu altruísmo. Em 2012, recebeu 24 crianças de Fukushima, onde, um ano antes, um poderoso sismo, seguido de um tsunami, devastou a zona e provocou milhares de mortos. A iniciativa de Shihoko foi totalmente paga do seu bolso, num investimento de parte do seu património pessoal. O único retorno foi o sorriso de quem teve a oportunidade de visitar Portugal e esquecer, ainda que só por alguns dias, a tragédia que viveu. Muitas dessas crianças ficaram orfãs ou perderam um dos pais. Em Portugal, foram recebidas por famílias de acolhimento. Em 2013, Shihoko voltou a repetir a aventura de acolher algumas crianças. Desta feita, apenas seis, lamenta. "Foi muito complicado trazer mais, porque as viagens são muito caras e, apesar dos portugueses serem muito simpáticos, em agosto estão muitas famílias de férias", explica Shihoko.

"Portugal tem gente muito simpática como no Japão", diz, a sorrir. O contacto destas crianças com o povo e a cultura portuguesa foi a forma que Shihoko arranjou de lhes devolver alguma felicidade.

"Um dia, vou voltar para o Japão, mas ainda não", revela, sem deixar de acrescentar: "gosto muito dos portugueses, de Portugal... e da comida!", remata.

(Reportagem de agosto de 2013, da autoria de Tânia Mateus, da Associação Rotas da Lusofonia, incluída no livro "Bom Dia, Japão" editado pela mesma Associação)

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